Eu e minha esposa temos hoje  uma relação saudável com o hobby de boardgames.

Mas nem sempre foi assim, jogar e colecionar boardgame tem suas fases de amadurecimento: preferências, caos colecionista, traições financeiras, desapegos, tretas, etc.

Minha esposa por exemplo não gosta de jogos com conflitos direto. Gosta mais dos eurogames solitários com maquininhas de ponto, odeia cooperativos. Eu por exemplo gosto de jogos temáticos, cooperativos, conflito direto e euros em geral. Mas tentamos equilibrar essas preferências nos jogos que compramos e na nossa estante tem de tudo.

Já tivemos uma briga séria jogando Game Of Thrones a uns 7 anos. Já tivemos treta até no Terra Mystica, disputando controle de área, acreditem. Mas as tretas de hoje ficam na mesa e não sai dali. Graças a Deus evoluímos no hobby.

Com base nas minhas  experiências ao longo dos anos, resolvi escrever esse texto. Afinal são 25 anos juntos e 8 jogando. Agradeço se deixar nos comentários suas experiências.

QUANDO UMA DAS PARTES NÃO ESTÁ LIGADO NO HOBBY

Nesse nosso nicho existem 2 tipos de casais.

A. O casal que  coleciona boardgames, jogam juntos, compram juntos e faz tudo junto.
B. E tem o casal que só um curte jogos de tabuleiro

É normal uma pessoa não gostar de ficar 2 horas sentado em uma mesa jogando um boardgame? Claro. Da mesma maneira é perfeitamente normal alguém não gostar de jogar e nem assistir futebol por 2 horas.

A perplexidade é a mesma:  “Mas como assim vc não gosta? Você devia pelo menos tentar.”

Essa pessoa pode até ir a mesa porque você está insistindo muito. Mas ela vai jogar porque você não para de encher o saco.  Ou porque está com dó de você.

Sempre pergunto para desconhecidos na mesa quando vejo com aliança no dedo “Porque você não chama ela(e) pra jogar”, a resposta é sempre a mesma: “Não suporta” .

Um amigo  entrou em um relacionamento a pouco tempo e a nova companheira descobriu com espanto que uma parede inteira da sala do apartamento dele era forrada com centenas de jogos de tabuleiro.

Ele é um colecionador, e a sala de estar era sua sala de jogos. Até então quem freqüentava a sua casa eram só  amigos de jogatina.

Mas as coisas se complicaram quando a namorada que virou esposa começou a ter vergonha dos jogos na sala de visitas.

Tinha que explicar para seus parentes e amigas o que eram aquelas inúmeras caixas  nas prateleiras até o teto.

E sabemos que para quem não é do  hobby de bordgames modernos,  jogos de tabuleiro é um  brinquedo qualquer  tipo Banco Mobiliário, que quase toda criança tem desde os Anos 70. Imagina explicar o porque daquela montanha de “brinquedos” na sala

Quando uma das partes não gosta de jogos de tabuleiro tem que existir um  meio termo. A pessoa não vai largar um hobby porque o outro não gosta do hobby, isso não existe.

Conheço gente que construiu ou ocupou outro cômodo na casa pra abrigar os jogos. Ou ocupou o porão da casa e fez um “Man Cave” (espaço masculino de entretenimento), o sonho de todo gamer.

O importante é cada um respeitar o espaço do outro, aceitar que o outro tem um hobby e que os amigos e amigas dele vão se juntar na mesa da sala toda semana. Não adianta lutar contra isso. Se existe esse tipo de maturidade a paz reina.

Mas agora vamos para um outro tópico mais complexo.

QUANDO COLECIONAR BOARDGAME É MAIOR QUE O RELACIONAMENTO

Algumas pessoas ou por algum motivo patológico, vivem e respiram apenas para o hobby. Isso é um erro.

Esquecem de dar atenção para a outra parte mais importante, seu companheiro(a) e filhos se tiver.

O hobby de boardgame tem várias tentáculos que se você se deixar levar ele te agarra e te coloca dentro de uma caixinha:

– Você tem um mercado que está em constante crescimento e precisa de mais jogos pra chamar de seu.
– Precisa estar em foruns, grupos em todas as redes sociais a procura de algumas raridades, expansões, dicas, etc.
– Tem um blog e gosta de fazer resenhas sobre jogos, filmar para o Youtube, fazer podcast, ir em festivais.
– Participa de jogatinas em várias mesas durante a semana e em lugares até distantes.
– Precisa desesperadamente jogar.

Sem perceber o seu casamento está em segundo plano, pior ainda se tiver filhos. O relacionamento esfria, vem a separação e sua única condição na partilha dos bens é ficar com todos os jogos. “fique com tudo, mas eu quero meus jogos”.

Se você deixar, o hobby de boardgame pode ocupar um espaço exagerado no seu dia a dia. Vai controlar e exercer poder sobre você, e o pior você não vai mais sentir prazer quando joga. Único prazer é quando compra um jogo e deixa ele lacrado na estante com tantos outros que nem foram abertos. Você é agora um acumulador de jogos.

Afinal, o que queremos com o hobby de boardgame? Jogar ou só colecionar?

Quando a ficha cai, e você percebe que sua vida está estranha demais, é comum ver o relato de muita gente vendendo todos os seus jogos, saindo de todos os grupos, fóruns, cancelando jogatinas e se isolando de tudo que tenha meeples.  Inclusive tem casos conhecidos aqui e aqui.

Isso acontece em qualquer nicho de colecionáveis. Mas claro que não deveria ser assim.

Ter uma coleção é para ser algo saudável, um passatempo. Faz parte da natureza humana colecionar coisas. Mas tem que ter controle, principalmente financeiro.

QUANDO O COLECIONISMO AFETA A SAÚDE FINANCEIRA DA CASA

Como todos sabem, comprar boardgame  é caro. Ainda mais com a alta do dólar virou um artigo de luxo, pior agora em tempos de pandemia, porque com o confinamento precisamos como nunca dos jogos de tabuleiro.

Muitas vezes os problemas financeiros e a postura em relação ao dinheiro podem ameaçar uma relação e levá-la ao fim.

Manter uma coleção de jogos de maneira descontrolada pode desgastar um relacionamento, até entre casais que gostam de boardgame.

Conheço pessoas que compram jogos e pedem pra entregar na casa do amigo para que a esposa não fique sabendo.

Pior ainda se a única fonte de renda da casa se sente no direito de comprar quantos jogos quiser, mesmo que atrase o pagamento de outros boletos.

E como todos sabem isso vira uma bola de neve que leva a empréstimos com juros abusivos e brigas em casa.

Se você é solteiro e mora nas casas dos pais e não tem gastos com aluguel, moradia, impostos, etc…  e só quer investir em boardgames, então é tranquilo. Mas não dá certo quando tem contas para pagar, pior ainda em uma família.

Por outro lado conheço pessoas que gastam dezenas de milhares de reais com jogos por ano e não se endividam. Como? Eles compram, jogam e vendem no momento que o jogo está escasso no mercado.

É uma forma inteligente de ter uma coleção com boa rotatividade e ainda ganham uma grana.

Ao contrário de jogos de videogame que desvalorizam, boardgame é um investimento que dá dinheiro.

Enfim, se você não quer ter atritos financeiros em casa defina por mês um valor x de gastos com jogos.

Tenha maturidade financeira para dar um tempo na compra de jogos se as contas apertarem.

Tem lógica manter os jogos na estante e não pagar o boleto do plano de saúde? Se a situação financeira piorar, ou você foi demitido, venda seus jogos. Desapegue.

E nunca faça essas duas coisas:

1. Comprar ou financiar jogos escondidos, isso é uma traição financeira.

2. Não use o dinheiro como instrumento de manipulação: “O dinheiro é meu eu compro o que quiser”

Falando no vocabulário boardgamer:

Você está em um jogo cooperativo, e o outro jogador  tem um contrato de parceria com você. Nesse jogo vcs dois fazem escolhas, e escolhas erradas vão ter dar cartas de dívidas, que no final da rodada vão te fazer perder dinheiro e pontos de vitoria.

Se você não entendeu como o jogo funciona, melhor estudar as regras. E tentar de novo.

Enfim: comunicação, honestidade, respeito e empatia é a base para qualquer relacionamento duradouro.

2 Comentários

  1. Bacana sua reflexão! Estou a dois anos mais seriamente no hobby e a um em um relacionamento, estas dicas e relatos ai vão ajudar bastante!
    Parabéns pelo trabalho!

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